segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Estamos em recessão de crescimento", diz piauiense de Parnaíba, Reis Veloso

Ministro do Planejamento entre 1969 e 1979, no regime militar, e um dos estrategistas do chamado milagre econômico brasileiro, o economista piauiense João Paulo dos Reis Velloso vê hoje um conformismo inaceitável diante de um possível crescimento inferior a 4% do PIB. Para ir além desse patamar, Reis Velloso diz que é preciso retomar a taxa de investimento de 25% que o País já teve nos anos 1970. Organizador do Fórum Nacional, que discute os rumos do Brasil, Reis Velloso, de 80 anos, vai propor na próxima edição, que será realizada entre os dias 14 e 16, no Rio de Janeiro, o que define como dez áreas de oportunidades para projetar o Brasil no cenário mundial. Entre elas, a biotecnologia, criação de complexos industriais para beneficiar produtos primários e a transformação do Brasil num grande centro global de tecnologias. “Temos oportunidades, mas não tiramos proveito, o que é um desperdício”, afirma.
DINHEIRO – Como o sr. avalia o ritmo de crescimento do País? É suficiente para mudar o nível de desenvolvimento?
REIS VELLOSO – Nos últimos anos tivemos algum crescimento. Primeiro, muito baixinho, de 2%, 3%, 5% até chegar a 7,5%. Em 1977, quando o crescimento caiu de 11% para 6%, por causa da crise do petróleo, a Fundação Getúlio Vargas publicou um trabalho dizendo: nós estamos em recessão de crescimento.
DINHEIRO – E como osr. vê o momento atual?
REIS VELLOSO – É preciso voltar a ter essa ideia de que 3% é recessão de crescimento. Agora temos esta grande recessão mundial e o Brasil voltou a crescer os 3% de antes.
DINHEIRO – O que é recessão de crescimento?
REIS VELLOSO – É o crescimento que vamos ter este ano, de pouco mais de 3%, 3,5%.
DINHEIRO – Osr. acha que vai ser nesse nível? O governo ainda fala em 4%, 4,5%.
REIS VELLOSO – Os especialistas falam em 3% ou 3,5%. Se o governo conseguir mais que isso, ótimo.
DINHEIRO – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou o aumento do superávit primário, com economia extra de R$ 10 bilhões para este ano. Esse ajuste colabora para o crescimento do País?
REIS VELLOSO – Sim, ele pode ajudar a aumentar o investimento público, pode diminuir a taxa de juros, pode elevar o valor do dólar. Tudo isso é favorável. Pelo menos é um começo.
DINHEIRO – Mas é fruto de aumento de receitas, embora com crescimento menor dos gastos. Estamos caminhando para um ajuste fiscal de verdade?
REIS VELLOSO – É um bom sinal. O Estado brasileiro, nas últimas décadas, gastava muito. Com isso, aumentaram os impostos e também o endividamento. A consequência é uma poupança menor. Agora, aparentemente, o governo está adquirindo consciência de que é preciso poupar mais. Se o governo poupa mais, torna-se viável baixar a taxa de juros e, dessa forma, subir o dólar, porque passamos a ter taxas razoavelmente civilizadas, e não as taxas de juros mais altas do mundo. E, se quiser, o governo ainda pode investir mais. Porque 95% das suas despesas são gastos com custeio. Só 5% vão para investimento. Em 1987, o investimento do governo era de 17% do PIB. No meu tempo de ministro, era ainda maior. Caiu de 17% para 3% e agora subiu um pouco, para 5%. Por que a infraestrutura no Brasil é ruim? Nos anos 1970 era muito boa. Entre 1974 e 1979, a média de investimento público era de 25% do PIB. Depois caiu para 16%. Na época do “milagre” (1969-1979) era 22%. Temos de voltar a 25%.
DINHEIRO – Mas o investimento privado não assumiu o papel do investimento público? É possível voltar ao modelo em que os investimentos eram apenas públicos?
REIS VELLOSO – Sim, houve o avanço do investimento privado, e é bom que seja assim. O Brasil fez grandes avanços nos anos 1990 e um deles foram as privatizações. Havia uma geração que não viu o Brasil crescer. O crescimento da renda per capita era de 0,4%. Mas houve a abertura do mercado, no sentido de permitir mais importações, as privatizações, a criação das agências reguladoras. Com o Plano Real, o combate à inflação virou o valor social no Brasil. Só que eu quero que haja um outro valor, que é o do crescimento.
DINHEIRO – Quanto o Brasil pode crescer hoje em dia? Qual é o potencial?
REIS VELLOSO – Eu gostaria que o Brasil fosse subindo uma escada. Este ano dá 3,5%? Nos próximos anos vamos a 4,5%, 5%, 6%. Precisamos caminhar para ser um país desenvolvido.
DINHEIRO – E, para ser um país desenvolvido o Brasil precisa fazer o quê?
REIS VELLOSO – Elaborei dez sugestões de oportunidades que o Brasil pode aproveitar. Esta é a era das grandes oportunidades para o Brasil. Primeiro, universalizar a inovação, depois, usar o pré-sal para transformar a economia brasileira, e não apenas para produzir mais petróleo e gás. Temos de construir uma nova matriz energética, aumentando a participação da energia elétrica e evoluindo para um sistema de transporte público à base de trens, além de implantar o carro elétrico e desenvolver novas tecnologias de biocombustíveis. Temos também de aproveitar a nossa biodiversidade e transformar a biotecnologia em uma das grandes tecnologias do século 21. Devemos usar o modelo escandinavo para construir grandes complexos industriais em torno dos setores intensivos em recursos naturais, em vez de exportar produtos primários. Podemos transformar o Brasil no terceiro centro global de tecnologias de informação e comunicações, criar uma estratégia para desenvolver a eletrônica orgânica, buscando produzir o chip orgânico e desenvolver as indústrias criativas, que incluem artes, entretenimento e turismo. Nós temos essas oportunidades, mas não estamos tirando proveito delas. Só usamos 1% da nossa biodiversidade. Em tecnologia de informação, só exportamos US$ 3 bilhões por ano, enquanto a Índia exporta US$ 30 bilhões, dez vezes mais. Isso é desperdício de oportunidade. Temos que tomar como base a economia do conhecimento para nos desenvolver.
DINHEIRO – O Brasil está preparado para aproveitar a economia do conhecimento?
REIS VELLOSO – É só melhorar um pouco a educação. Precisamos de educação de qualidade.
DINHEIRO – Hoje não temos educação de qualidade. Mas estamos caminhando para isso?
REIS VELLOSO – Hoje não temos porque isso se perdeu quando se massificou a educação no ensino fundamental. Nós tivemos várias massificações no Brasil. Massificações eleitorais. Explosão do crescimento do número de eleitores. Houve uma explosão do crescimento urbano, houve uma explosão do crescimento da educação, mas a qualidade afundou. Nós temos de universalizar até o ensino médio, com boa qualidade. Eu vim do Delta do Parnaíba, no Piauí. Nos anos 1940 eu estudei em colégio bom lá e hoje você tem problemas de qualidade no Rio de Janeiro, em São Paulo. É simples: é preciso ter bons professores. O que precisamos hoje é de educação de qualidade e usar a economia do conhecimento. Nós já lidamos com esse assunto no Fórum Nacional há sete anos, temos livros sobre isso.
DINHEIRO – E houve evolução nesse período? O Brasil está mais preparado?
REIS VELLOSO – Houve alguma evolução. Mas tinha de ser prioridade.
DINHEIRO – Mesmo com a crise lá fora o desemprego caiu no Brasil e chegou a 6%. O sr. vê espaço para cair ainda mais?
REIS VELLOSO – Caiu, mas o subemprego está muito elevado. A subutilização da mão de obra é muito grande. Ainda há muito emprego informal. O meu escritório fica na rua 7 de Setembro, no Rio de Janeiro. Praticamente o dia todo a calçada está cheia de camelôs. Às vezes tenho de pedir licença para o carro poder passar. O subemprego e a informalidade estão mascarando o desemprego.
DINHEIRO – O sr. defende que a exportação de produtos primários tem de acabar e que o pré-sal deve servir para desenvolver novas cadeias produtivas. O pré-sal pode levar o Brasil a desistir dos biocombustíveis e virar mais um exportador de petróleo?
REIS VELLOSO – Sempre há esse risco, mas eu acho que temos de evitar isso. O petróleo deve ser usado para desenvolver a indústria, com petroquímica e química fina. O Brasil tem que usar o etanol e a energia elétrica para fazer veículos elétricos. O que a Petrobras fez, em matéria de pesquisa, é inacreditável. Quando houve a primeira crise do petróleo, em outubro de 1973, o Brasil produzia 15% do petróleo que consumia e hoje é um dos grandes produtores mundiais. Temos de criar todo um complexo industrial. O petróleo tem três mil subprodutos. Ainda estamos começando.
DINHEIRO – Como o sr. vê o risco de inflação? Até que ponto devemos nos preocupar com ela?
REIS VELLOSO – É importante. Temos de evitar a indexação na economia. Tanto no setor privado quanto no setor público.
DINHEIRO – O sr. chamou o atual momento da economia mundial de grande recessão. O Brasil escapa dessa grande recessão?
REIS VELLOSO – Isso não é difícil. O Brasil já fez a primeira etapa. Como? Defendendo a renda dos setores vitais da economia. Mas isso não é suficiente. Isso é a defesa. Como diz Sun Tzu, em A Arte da Guerra, ficar apenas na defesa é sinal de fraqueza. É preciso ir para o ataque, senão não ganha o jogo.
DINHEIRO – E o que é o ataque a que o sr. se refere, nesse caso?
REIS VELLOSO – Um novo modelo, que permita o aproveitamento das oportunidades. Se o governo não quer fazer como nós estamos propondo, então diga como. Mas é preciso aproveitar as oportunidades que estão surgindo.
Por Denize Bacoccina